A importância e vantagens da reciclagem

A segunda metade do século XX foi marcada pelo surgimento de uma série de produtos que contribuíram para a praticidade do nosso cotidiano. A ascensão da indústria de materiais descartáveis foi uma das protagonistas desse desenvolvimento, como por exemplo, a invenção do PET (Politereftalato de etileno). Inicialmente empregado na indústria têxtil, esse tipo de plástico logo revolucionou o setor de armazenamento e transporte de alimentos e bebidas, com as vantagens de ser inquebrável, leve e de fácil manuseio – substituindo o vidro, pesado e frágil.

O consumo em grande escala dos plásticos gerou um problema que se tornou uma preocupação global em relação ao meio ambiente: o descarte desses resíduos. Nas últimas décadas instituições defensoras da sustentabilidade passaram a pressionar os governos e a indústrias por posturas mais responsáveis: o crescimento econômico em detrimento do meio ambiente virou objeto de pesquisa de cientistas, tomou as manchetes das revistas especializadas e dos jornais e ganhou o apelo da população.

O fim do uso de materiais descartáveis é inviável, tampouco os ambientalistas clamam por isso. O desenvolvimento sustentável consiste em 3Rs: reduzir, reutilizar e reciclar. A indústria fica encarregada da terceira etapa. O processo de reciclagem não só preserva o meio ambiente, mas também gera riquezas e reduz os custos de produção das empresas que investem na prática, além de promover o marketing social de “empresa eco-friendly” ou “empresa verde”. Os materiais mais reciclados são o vidro, alumínio, papel e plástico e o processo contribui para uma redução considerável da poluição do solo, da água e do ar.

Os reaproveitamentos desses materiais são de quase 100%: o alumínio pode ser derretido para as linhas de produção de indústrias de embalagens; o plástico reciclado tem praticamente as mesmas aplicações que o plástico virgem – com exceções para embalagens de alimentos e medicação; o vidro reciclado mantém as características de um vidro comum e pode retornar várias vezes para a cadeia produtiva; já o papel reciclado é ideal para embalagens (papel craft e papelão), fins sanitários (papel toalha e guardanapo), papelaria (impressão e escrita) e artesanato.

Instituída pela Lei 12.305, de 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos proibiu lixões no Brasil. O prazo para o fechamento de quase de três mil aterros irregulares e lixões venceu há quatro anos, mas infelizmente o problema persiste. Visto que os centros urbanos não dispõem de locais apropriados para a instalação de aterros sanitários de forma segura, mais uma vez a reciclagem apresenta-se como uma solução logisticamente viável, economicamente rentável e ambientalmente correta.

A Lei ainda prevê que os municípios implementem coletas seletivas empregando, preferencialmente, catadores de lixo. A medida gera postos de trabalho e renda para cerca de um milhão de pessoas: “É fato comprovado pelos municípios usuários de serviços de coleta seletiva que a atividade de catador retira famílias do lixão e diminui a criminalidade, por reciclar não apenas os materiais, mas, principalmente, os indivíduos e a sociedade como um todo”, afirma o presidente da Plastivida, Miguel Bahiense.

A Plastivida é o instituto socioambiental dos plásticos e atua de maneira colaborativa, por meio da educação ambiental, para disseminar informações precisas e científicas sobre os plásticos – suas propriedades, aplicações, reciclabilidade, além do uso responsável e descarte adequado – a fim de contribuir com o desenvolvimento social e ambiental

A reciclagem no Brasil em números

A última pesquisa sobre o setor encomendada pela Plastivida revelou dados impressionantes: a indústria brasileira reciclou mecanicamente 21% do total de resíduos plásticos. O número deixou o Brasil na frente do Reino Unido (20%), França (19%), Finlândia (18%) e Grécia (17,6%), países pioneiros em ações sustentáveis. A Indústria Brasileira de Reciclagem Mecânica de Plásticos cresceu 52% no espaço de tempo de uma década. Em 2003 foram contabilizadas 492 empresas ativas – em 2012, o número subiu para 762.

O número de postos de trabalho gerado pela indústria atingiu 18,8 mil, um acréscimo médio de 5% ao ano na última década. O faturamento em 2012 chegou na bagatela de R$2,5 bilhões, um número 4,3% acima do verificado em 2011. A capacidade brasileira hoje de reciclagem é de 1,7 milhões de toneladas.

Onde recicla?

São Paulo lidera o número de empresas de reciclagem: são 298, representando 39% do total. A Região Sul vem em seguida com 36% e as outras 25% estão distribuídas pelas demais regiões, com baixa incidência no Norte e Nordeste. Os indicadores quantitativos como número de empresas, empregos, faturamento bruto e produção de plástico reciclados não são os únicos critérios da eficiência da reciclagem.

A comercialização, o valor do negócio, investimentos, a redução do quadro informal de trabalho e a qualidade dos processos demonstra a capacidade de o setor crescer cada vez mais. A análise detalhada da atividade se divide em três etapas:  coleta e separação, que é a triagem por tipos de materiais; revalorização, momento em que os materiais separados são preparados para serem transformados em novos produtos; e transformação, ou o processamento dos materiais para geração de novos produtos.

Como recicla?

Em relação ao processamento dos materiais ainda há três meios específicos de execução: a primeira é a reciclagem energética, que transforma os resíduos não recicláveis em energia elétrica e térmica. Em torno de 150 milhões de toneladas de lixo urbano são encaminhadas para cerca de 750 usinas implantadas em 35 países, como Estados Unidos, Japão, China. No Brasil, porém, esse processo não é utilizado pela indústria.

A única usina de recuperação energética (URE) de resíduos sólidos no Brasil fica na Universidade Federal do Rio de Janeiro e tem caráter experimental. A implementação dessas estruturas tem um custo dispendioso, o que torna esses projetos pouco atraentes.

Já a reciclagem química reprocessa os plásticos transformando-os em petroquímicos básicos, como monômeros ou misturas de hidrocarbonetos. Esses compostos encontram aplicabilidade em refinarias ou centrais petroquímicas, servindo de matéria-prima para obter-se produtos novos. Por tratar misturas de plásticos, esse processo reduz custos de pré-tratamento, além de produzir um material com a mesma qualidade de um polímero original.

Por fim, temos a reciclagem amplamente difundida no Brasil: a mecânica. O processo consiste em converter o descartes plásticos pós-industriais ou pós-consumo em grânulos reutilizáveis na fabricação de outros materiais. Desta forma é possível a obter produtos compostos por um único tipo de plástico ou por produtos pela fusão de diferentes materiais.  Todos os processos resultam não apenas em benefício à cadeia produtiva, ao meio ambiente e aos trabalhadores envolvidos na coleta, mas também ao consumidor.

No último levantamento do setor, em 2012, o Brasil havia reciclado 1.086 mil toneladas de plásticos descartados. Desse montante, o setor com maior aplicabilidade foi o de utilidades domésticas, que captou 153 mil toneladas. Em seguida vieram os segmentos de construção civil (148 mil), automobilístico (109 mil), de descartáveis (107 mil), industrial (99 mil), têxtil (94 mil), agropecuário (89 mil), eletroeletrônico (86 mil), de infraestrutura e limpeza doméstica (ambos com 71 mil), de móveis (29 mil), de calçados (9 mil), de material de escritório (4 mil) e demais atividades (18 mil).

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